O Ciclo da Adolescência

Dos 14 aos 21 desenvolvemos o nosso idealismo e o sentido crítico. O que somos, o que queremos ser, o que queremos parecer e quem se parece com isso que queremos ser. O mundo torna-se mais verdadeiro (menos imaginário) e os ídolos presentes. Nossos amigos nos representam e buscamos acima de tudo uma identidade.

A Bia, a adolescente que eu fotografei, tem 16 anos e estuda na Waldorf há um ano, para onde mudou por vontade própria depois de ter estudado a vida toda na Escola Suíça.

Ela é meiga, feminina, artista de primeira, desenha maravilhosamente bem e faz teatro. Sempre foi líder de turma e adora esportes. Sou um pouco suspeita pra falar dela, porque a sua mãe é minha amiga e irmã de alma há 20 anos (!).

Desde o começo do projeto eu sabia que a Bia seria a minha representante da adolescência. Todos sabemos que existem várias tribos de adolescentes que eu poderia fotografar e, se eu fosse mesmo fazer isso, teria que montar um projeto específico (quem sabe!) porque as possibilidades de exploração são enormes. E como no caso do CICLOS a ideia é retratar peculiaridades de fases diferentes, a minha tribo escolhida foi a da Bia.

Eu passei dois dias com ela.
Primeiro foi um sábado.
Ela acordou na casa do pai e passamos o dia fazendo mil atividades com as amigas pela cidade. Casa da mãe, pintura, metrô, trem, Paulista, feira mística, e pizza a noite. Foi bacana, mas eu achava que faltava o encontro com a turma. Foi quando voltei.

Na outra sexta-feira me encontrei com ela e a turma na saída da escola e fomos para uma praça ali ao lado, que é o que eles fazem toda sexta. De lá, armaram o “rolê” (como eles dizem) da noite que, neste dia, seria um encontro na casa de um dos amigos, no caso, as 8pm na casa de uma das meninas.

Alguns fatores que facilitaram meu trabalho: a Bia já é uma conhecida minha desde que ela nasceu, então não foi muito difícil me envolver com a turma dela. Comecei fotografando com o celular e o pessoal já sabia mais ou menos o que era que eu estava fazendo ali. A Bia já tinha explicado antes e todos haviam topado a minha presença e eu me senti absolutamente à vontade com eles. No final do dia eles estavam fotografando mais do que eu 🙂

Os meus sentimentos e sensações me pegaram de surpresa.

Diferente da fase da gestação e da maternidade, as duas últimas fases que fotografei, onde senti compaixão e identificação em tempo real, ali eu senti exatamente o que gostaria de ter sentido na minha adolescência, mas que de certa forma eu não tive. Era como se eu tivesse encontrado “a minha turma”, só que 20 anos depois. Era um tipo de nostalgia e saudades do que eu não tive e uma absoluta euforia por estar ali. Apesar de estar ali para “olhar” para eles, eu estava na verdade fazendo um estudo antropológico de mim mesma. De repente eu entrei no túnel do tempo, não para o passado da minha vida real mas, para um tempo que certamente teria sido meu se eu estivesse em outro ambiente. Muito doido! Foi altamente revigorante. Eu me senti feliz, eu me senti parte, eu fazia parte. E tudo rolou. Eu virei amiga e até pedi conselhos.

Fiquei também muito feliz em notar que eles são politizados, tranquilos, conscientes, amigos e qual a minha outra grande surpresa? As vozes que os representam continuam as mesmas: PinkFloyd, Bob Marley, Beatles, Led Zeppelin, Legião, Chico…tudo de bom! Meninos com cabelos mais bonitos do que os nossos de meninas, meninas com piercings e tatuagens, a bebida bem pouca e o celular bem MUITO.

“E eu não quero deixar ninguém ver que eu sou mesmo
O que pensam de mim quando me veem na rua
Classe média enjoada com pinta de artista
Será que eu sou tão previsível assim?

Essa não, ai meu Deus
Que tragédia, eu não posso viver sendo igual a ninguém
E eu pensei que era inteligente mas de nada eu sei
Minha mãe me falou que bonito era eu, mais ninguém
Como pode a mãe dele ter dito pra ele também?”
 – Eu Confesso. O Terno.

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